Treinando para a vida

Desafio, superação e conquista – quem, como eu, não se inspira profundamente por histórias de pessoas que superaram as adversidades e não desistiram apesar de todas as dificuldades e, finalmente, foram bem-sucedidas em seus objetivos?

Recentemente me encantei com a história da nadadora americana Diana Nyad (https://esporte.uol.com.br/natacao/ultimas-noticias/2013/09/02/mulher-de-64-anos-e-primeira-a-nadar-rota-cuba-a-florida-sem-protecao.htm). Aos 64 anos de idade, ela se tornou a primeira pessoa a concluir a nado e sem jaulas de proteção uma das distâncias mais desafiadoras das águas abertas: o Estreito da Flórida, entre Cuba e EUA, com 177 km de distância. Ela concluiu o desafio em 52 horas e 54 minutos e, portanto, passou mais de 2 dias e 2 noites nadando. O depoimento dela sobre a travessia é sensacional e uma passagem me chamou particularmente a atenção: já totalmente exausta, durante a noite, nada a enxergar, apenas o silêncio e aquele movimento contínuo das braçadas, e ela seguia cantando mentalmente, sem parar, canções de Neil Young. Era seu recurso para superar o cansaço e prosseguir. E assim foi, progredindo braçada a braçada, até finalmente atingir a costa da Flórida, onde saiu do mar quase inconsciente, rosto inchado, irreconhecível. Mas vitoriosa naquela que era a prova de sua vida: ela já havia tentado esta travessia outras quatro vezes (a primeira em 1978), mas sempre teve problemas e acabou abandonando no meio da prova.

Aos 64 anos decidiu fazer aquela que seria sua última tentativa. E conseguiu.

Penso quantas vezes ela deve ter ouvido das pessoas ao seu redor, dos treinadores, família e, pior, de si mesma: ”Diana, você está velha demais pra tentar de novo! Já tentou outras vezes quando era jovem e forte e não conseguiu, porque acha que as 64 anos irá conseguir? Pare com isso, é loucura!!”

E concluo que ela já havia sido vitoriosa no momento em que deu o salto na água para recomeçar mais uma vez a grande travessia, respondendo com esse gesto àquelas vozes tentando lhe dissuadir de seu grande sonho.

Não sei vocês, mas acho que é bastante comum a gente se encantar com esses relatos, se imaginar passando por estas provas de vida e, frequentemente, chegar à conclusão de que há pessoas que nascem com talentos incríveis, com uma força descomunal e muita sorte, mas que se fosse com a gente – pessoas comuns sem grandes atributos nem tempo pra investir – hmmm… não sei se daria certo não…

Bom, eu poderia engrossar o coro mas, por algum motivo, a vida se encarregou de me mostrar que, na maioria dos casos, essas pessoas inspiradoras são gente comum como eu e você. Mas, diferente da maioria de nós, elas acreditaram fortemente em algo, arrumaram tempo ao invés de desculpas, investiram seus esforços com persistência, não desistiram diante das dificuldades e chegaram lá.

No esporte, na ciência, na política, na religião. Pessoas nos inspiram em qualquer área.

No ciclismo.

Aquele esporte que, desconfio, apaixona mais que o futebol – ao menos conheço ex-jogador profissional de futebol que virou ciclista mas não conheço ex-ciclista que virou jogador de futebol… ahahah…. Aliás, não conheço ex-ciclistas, vocês conhecem? Tem alguns que dão um tempo, precisam vender a bike, mas abandonar de vez, não conheço. Nem que seja pra virar apenas espectador do Tour de France pela TV, a bike ainda palpita no coração!

E assim, com essa gente loucamente apaixonada por bike, a gente chega nos atletas do pedal. Quem são essas pessoas que a gente vê fazendo coisas sobre-humanas por aí? Quem desce destemidamente escadarias infindáveis numa bike? Quem atravessa as trilhas mais difíceis com esse misto de força e delicadeza, deslocando-se ágil como um felino entre árvores, pedras, barrancos? Quem escala as montanhas mais íngremes pedalando vigorosamente? Quem atravessa dia e noite em cima da bicicleta, cruzando cidades, estados, continentes? Quem pedala centenas de quilômetros girando em círculos?

Treino. Dedicação. Persistência. Paixão. Foco, Fé e Força.

Atletas são pessoas que puxam seus corpos aos limites entre o que um ser humano é capaz de fazer e o que ultrapassa o seu próprio instinto de auto-preservação. Atletas, via de regra, vão contra o que a cabeça tolera que o corpo faça. Portanto, quando a gente vê um atleta fazendo um esforço sobre-humano, sabe que ali estão horas, MUITAS horas, de treinamento. E o treinamento inclui não apenas preparar o corpo para executar aquelas tarefas, mas também – e principalmente – condicionar a cabeça a não sabotar tudo naquele momento de esforço sobre-humano.

E aí vem a grande pergunta: mas como a gente condiciona a cabeça? Como a gente faz pra silenciar aqueles pensamentos que nos fazem sabotar nossos treinos, desistir no meio das provas, travar os músculos que – poxa! – a gente sabe que estavam super bem preparados pra suportar o tranco…?

Essa hora a gente precisa descobrir quais as canções que nos sensibilizam e cantarolá-las indefinidamente – tal qual Diana Nyad no mar escuro. Repetir palavras de força e motivação: gosto muito de um vídeo motivacional que nos lembra de agradecer sempre a oportunidade de estar ali, naquele lugar, naquele momento. “Lembrar-se de perceber o que você está pensando quando seu nível de esforço estiver baixo. Você provavelmente estará pensando na obrigação e não na oportunidade” (link do vídeo). Você está ali não porque alguém mandou – mas porque você quis estar ali. Se dedicou, treinou, investiu tempo e energia. Agradeça a oportunidade de estar ali e prossiga.

Existem recursos interessantes para treinar a cabeça. Tenho observado que os atletas de endurance executam frequentemente treinos repetitivos e provavelmente uma das razões é acessar essa fase de cansaço mental sobre a bike. “Bate-volta 3x estrada Romeiros” (coisa do Cabeção). “Sobe-desce a madrugada inteira Veia do Queijo” (proeza da amiga Camila Lourenço). “6h Taquaral (treinão do Carlos Reis). “11x  Pico do Jaraguá” (treino do Miguelito). Desafio “Everesting”: subir e descer a mesma subida em um número suficiente de vezes pra atingir a altura do Monte Everest (façanha que poucos brasileiros já realizaram, entre eles o William Previtalli e o Nicolau Trevisan).

Observando isso e diante da minha dificuldade em superar o cansaço mental durante as provas de longa distância de que tenho participado, essa semana me arrisquei a fazer um treino maluco desse tipo. Inventei de cumprir um “gira-gira infinito” num circuito curto (2,5km) da Av. Mackenzie, aqui em Campinas, um dos meus locais favoritos de treino. Comecei o treino pensando em fazer 4 horas ou 100km – o que viesse primeiro. E já sabendo que seria nesse circuito menor pra ser bem repetitivo mesmo.

Vou contar como foi. Senta que lá vem história! kkk

O dia estava com clima não muito favorável a esportes outdoor, risco de chuva, meio frio. Eu já começava a arranjar motivos pra deixar pra outro dia, mas assim que lembrei a razão deste treino dei risada sozinha: “não tem dia melhor pra um treino desses, vai ser rápido acessar a fase de fingimento!” kkkk

E lá fui eu. Garmin na tela do mapa pra eu não ficar olhando distância nem tempo e comecei a girar. Neste circuito seriam necessárias 40 voltas pra totalizar 100km – um número auspicioso, já que 40 anos é minha idade. Daí pensei “ah, vou fazendo uma contagem regressiva, cada volta 1 ano da minha vida e seus acontecimentos. 40, 39, 38 – comecei a pedalar…37, 36 – nasceu Heitor…. 35, 34, 33, 32 – nasceu Helena…31, 30.

Quando cheguei nesta décima volta (25km) o som no meu fone acabou, parei pra iniciar uma playlist mais longa e aproveitei pra tirar uma foto pra registrar.

Esse balão é muito bonito, todo plantado de flores rosas e um capim dourado. Nessa altura, a avenida cruza um eucaliptal que, normalmente, nos avisa com o chacoalhar das copas o status do vento na Mkz. Nesse dia não estava ventando, o tempo ainda estava nublado mas firme. Bom!

Segui girando. Na contagem regressiva, 29, 28, 27, 26 – nasceu meu primogênito Ulisses. Aí fui fazer as contas inversas e me embananei, quase fiquei em dúvidas do ano em que nasceu meu filho. Aí percebi que estava ficando cansada já… kkkk

Sem prestar atenção na contagem das voltas, passei a curtir mais as músicas.  O som no ouvido ajuda bastante a distrair – pros curiosos, ouvindo Discografia completa de Muse. “Gratidão por essa música no ouvido!” pensei. “A nadadora Diana Nyad não tinha como ouvir música, teve que cantarolar mentalmente…”

E segui girando, na vigésima volta o tempo começou a escurecer, uns pingos a caírem e decidi olhar a tela de distância do Garmim – 45km!

Eitaaaaa! Como assim 45 km? Mas 20 voltas não era pra ser 50km – a metade?? Me deu desânimo imediatamente, duas voltas de diferença… pensei que estava tudo errado nas contas, já me deu vontade de parar e ir embora antes da chuva…

Sorri de novo ao perceber que já estava chegando na fase produtiva do treino de endurance mental, quando a cabeça fica achando motivos pra sabotar aquela repetição infinita.

“Foco, Ana!”

E logo veio a chuva. Começou fina e foi apertando. O ritmo que estava sendo confortavelmente mantido a 28kmh começou a cair, a camada de água no chão me obrigava a ser mais cautelosa nas curvas.

A tela do Garmim sempre no mapa, mas eventualmente eu botava na distância. 60km e nada da chuva ceder. “Vai ficar doente debaixo de chuva!”, “Pode cair nesse chão escorregadio”. 75km ou 30 voltas. “Tá bom já!”

Todas as vezes tive que repetir pra mim mesma: “Pára de fingimento, Ana. Vc veio pra fazer 100km, foco!”

E assim fomos, molhada e sabendo que, se parasse, ia esfriar muito. “Numa prova, se chover, não tem parada não! Tem que seguir adiante!!” Até agradeci a Deus pela chuva: treino de endurance nível master… ehe…

Por fim, aos 80km a chuva parou. Quase vislumbrei um sol atravessando as nuvens e agradeci novamente, parecia Deus me fazendo um carinho. “Boa Ana, você atravessou a prova da chuva!”

Faltava pouco, menos de dez voltas, e comecei a contagem regressiva das voltas novamente. A água da minha caramanhola estava acabando, mas o treino também.

Gratidão.

Os 100k chegaram antes das 4 horas (3:42h, mais precisamente). E eu, que sou muito besta, me senti fazendo uma chegada emocionante!!

Não foi fácil não, sei que o pessoal faz esses treinos corriqueiramente e tiro meu chapéu. Fiz uma postagem no dia desse treino pra compartilhar a minha #gratidão e #admiração por seres humanos que fazem prova de ultra-distância. Domínio mental é uma arte!!

E agora compartilho esse texto um pouco mais detalhado pra que eventualmente sirva de incentivo pra alguém que está por aí, em dúvida se é capaz de superar-se.

Nunca me esqueço de uma das minhas primeiras corridas de MTB, em que tinha assumido a liderança logo na primeira volta mas estava começando a ficar cansada e ainda tinha chão pela frente. Baixando o ritmo daquele jeito e logo alguma menina me ultrapassaria. De repente um pensamento me atravessou como um raio: “Ana, vá! Se não por você, mas pelos seus filhos! Por todo o tempo que eles abriram mão da sua presença pra você treinar e estar aí, agora, competindo! Não desperdice isso, é o tempo deles que você usou, honre isso!!!” E imediatamente a força voltou e pedalei com raiva de sequer ter pensado em desistir de lutar. Ganhei a prova nesse dia e segui usando esse pensamento como combustível em todas as provas que participei.

Seja num treino, numa prova, ou na vida. Nosso tempo é o bem mais precioso que temos a ofertar pra nós mesmos e para os que amamos!

——–

Sobre o circuito: a Av Mackenzie é uma avenida relativamente nova, tendo sido inaugurada em meados de 2015 (http://campinaspress.com.br/index.php/campinas-inaugura-o-prolongamento-da-avenida-mackenzie-neste-sabado-6/). Compreende uma ciclovia no canteiro central ao longo de toda sua extensão, desde a loja da Decathlon (rodovia D. Pedro), percorrendo uma longa subida em curvas (aprox. 2km e 5% de inclinação média), até atingir as áreas altas, onde vai descendo em platôs pelos condomínios de San Conrado, Pedra Alta e Entreverdes.

Em praticamente toda sua extensão temos vista ampla para Souzas e as montanhas de Joaquim Egídio de um lado, e as costas da região do Alphaville do outro – quem conhece sabe a maravilha de pôr do sol que temos ao longo da Mackenzie. Não tem comércio, é uma concessão particular e bastante gente do San Conrado e arredores a utiliza para passear de bicicleta e correr/caminhar. Quando vou pela manhã, mesmo durante a semana, sempre vejo movimento de pedestres. Eventualmente, aos finais de semana, uma perua vende refrescos e água de coco na área mais alta.

As speeds treinam na rua e, ocasionalmente, ouvimos depoimentos de agressão por parte dos motoristas ou roubos. Toda vez que posto meus treinos solo os amigos se preocupam com minha segurança, mas devo dizer que nunca tive medo de pedalar na Mackenzie. Uma única vez passei por uma situação chata: um motorista em estado histérico passou por mim gritando xingamentos pela janela – eu estava de fone e nem ouvi direito, mas sei que a raiva que sentem é porque julgam que devemos pedalar na ciclovia. Não compreendem a diferença entre treino e passeio, não compreendem o que é um pelotão de speed e muito menos foram informados que é lei manter uma distância de 1,5m do ciclista (Art. 201 do Código de Trânsito Brasileiro – Lei 9503/97).

E finalmente, sobre os circuitos de treinos: a volta longa possui 12,7km (segmento Strava), o circuito médio tem 7,6km (segmento Strava) e o circuito curto tem 2,5km (o segmento do Strava faz um retorno na contramão e tem 2,4km (segmento Strava) – mas eu costumo fazer o mesmo retorno dos carros, cerca de 50m adiante).

A Prova Tiradentes de ciclismo têm utilizado o circuito médio da Av. Mackenzie desde 2016, tive a oportunidade de correr a edição deste ano e foi uma grande experiência (http://www.provatiradentesciclismo.com.br/). Vale a pena conhecer!

Algumas fotos:

 

Corrida Tiradentes 2017. Em ação – The Brothers Team! Foto: Divulgação

Corrida Tiradentes 2017. Em ação – The Brothers Team! Foto: Divulgação

 

Eucaliptal na área alta da Av. Mackenzie, num dia chuvoso. Foto: arquivo pessoal

Eucaliptal na área alta da Av. Mackenzie, num dia chuvoso.

 

Ciclovia - será que dá pra treinar o pelotão de speed aí?

Ciclovia – será que dá pra treinar o pelotão de speed aí?

No horário de verão, treinar no fim de tarde nos permite girar com esse visual <3

No horário de verão, treinar no fim de tarde nos permite girar com esse visual <3

Percebam os eucaliptos envergados e minha trança sendo levantada – quando dá de ventar na Mkz, sai de baixo! eheh  

Percebam os eucaliptos envergados e minha trança sendo levantada – quando dá de ventar na Mkz, sai de baixo! eheh

Na primeira descida do circuito, temos essa vista pra Souzas e as montanhas de Joaquim Egídio!

Na primeira descida do circuito, temos essa vista pra Souzas e as montanhas de Joaquim Egídio!

 

Vista do alto do Entreverdes em direção às costas do Alphaville.

Vista do alto do Entreverdes em direção às costas do Alphaville.

 

Aquela foto que resume nosso amor manifesto por tudo isso! Bike é vida <3

Aquela foto que resume nosso amor manifesto por tudo isso! Bike é vida <3

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